Manejo da cana-de-açúcar: guia para prescrição agronômica correta
Sumário
Manejo da cana-de-açúcar: guia para a prescrição agronômica, integrando doenças, pragas de solo, insetos, herbicidas e posicionamento químico para decisões mais precisas no canavial.
A cana-de-açúcar ocupa posição estratégica no agronegócio brasileiro, sustentando uma das cadeias produtivas mais robustas do país. O Brasil lidera a produção mundial de açúcar e etanol, com safra superior a 600 milhões de toneladas nas últimas temporadas, conforme dados da Conab, distribuída majoritariamente nas regiões Centro-Sul e Centro-Oeste.
Estados como São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul concentram sistemas altamente tecnificados, com colheita mecanizada e planejamento de cortes sucessivos.
Trata-se de uma cultura semiperene, conduzida por vários ciclos de colheita, na qual cada decisão impacta não apenas a safra corrente, mas a longevidade da soqueira.
O desempenho produtivo é medido por indicadores como TCH e ATR, que respondem diretamente à sanidade do dossel, à integridade radicular e ao equilíbrio nutricional. Não há espaço para condução empírica.
O ambiente produtivo da cana é complexo. Solo, clima, variedade, histórico fitossanitário e regime de chuvas interagem continuamente. Doenças foliares, patógenos sistêmicos, pragas subterrâneas e plantas daninhas competem por espaço no sistema. Pequenos desvios no estabelecimento podem comprometer vários cortes subsequentes.
A prescrição agronômica surge como eixo organizador dessas decisões. Não se trata apenas de escolher insumos, mas de posicionar ferramentas com base em diagnóstico técnico, leitura da área e entendimento da biologia dos alvos envolvidos.
O manejo da cana-de-açúcar assertivo começa antes do plantio, acompanha o desenvolvimento da cultura e se estende até o planejamento da reforma do canavial.
Ficou interessado? Continue conosco!
Doenças no manejo da cana-de-açúcar: as três de maior impacto econômico
A sanidade do canavial é determinante para a estabilidade do TCH e do ATR ao longo dos ciclos de corte.
Entre as diversas enfermidades registradas na cultura, três se destacam pelo impacto produtivo, potencial de disseminação e recorrência nas principais regiões produtoras do país.
Ferrugem-marrom
Causada por Puccinia melanocephala, a ferrugem-marrom compromete diretamente a área foliar fotossintética, reduzindo a capacidade de acúmulo de sacarose.
Os sintomas iniciam com pontuações cloróticas que evoluem para lesões alongadas marrom-escuras e pústulas com uredósporos, facilmente dispersos pelo vento.
O manejo da cana-de-açúcar exige uso de variedades resistentes, monitoramento em períodos de alta umidade relativa e aplicação preventiva de fungicidas quando as condições ambientais indicarem risco elevado de infecção.
Carvão-da-cana
Provocado por Sporisorium scitamineum, o carvão afeta o meristema apical e é caracterizado pela formação do “chicote” escuro no ponteiro dos colmos.
Essa estrutura concentra grande quantidade de esporos, favorecendo rápida disseminação.
O controle baseia-se no uso de mudas sadias, eliminação manual de plantas infectadas antes da liberação dos esporos e rigor sanitário na desinfecção de ferramentas e equipamentos.
Raquitismo da soqueira
Causado por Leifsonia xyli subsp. xyli, o raquitismo compromete o xilema e reduz o desenvolvimento da planta, com sintomas discretos que dificultam o diagnóstico visual.
Colmos finos, internódios curtos e desuniformidade são indicativos frequentes.
O manejo da cana-de-açúcar depende da utilização de mudas certificadas, tratamento térmico ou químico de toletes e monitoramento laboratorial para evitar a disseminação em viveiros e áreas comerciais.
Interações fisiológicas do manejo da cana-de-açúcar sob aplicação de fungicidas. Fonte: UFU e Syngenta (2023).
Manejo da cana-de-açúcar: prescrição agronômica estratégica para o controle da broca-da-cana (Diatraea saccharalis)
A broca-da-cana compromete diretamente o colmo, reduz o ATR e favorece a entrada de patógenos como Colletotrichum falcatum, intensificando perdas tecnológicas.
A prescrição agronômica deve iniciar pelo monitoramento do percentual de entrenós broqueados e pela identificação da fase predominante da praga.
O controle biológico com Cotesia flavipes permanece como eixo central do manejo em grande parte das áreas comerciais. A liberação deve ser sincronizada com o pico populacional da lagarta jovem, garantindo maior eficiência de parasitismo.
Quando a pressão populacional exige intervenção complementar, podem ser utilizados inseticidas registrados para a cultura, como clorantraniliprole, lambda-cialotrina e beta-ciflutrina, sempre respeitando seletividade, período de corte e integração com o controle biológico.
O manejo da cana-de-açúcar isolado não sustenta estabilidade produtiva em áreas historicamente infestadas.
Manejo da cana-de-açúcar: prescrição agronômica estratégica para o controle da broca-do-rizoma (Migdolus fryanus)
Migdolus fryanus é uma praga estrutural de solo que compromete rizomas, raízes e longevidade da soqueira.
O manejo da cana-de-açúcar não admite decisões pontuais. Exige planejamento plurianual, leitura histórica da área e monitoramento consistente.
Identificação e diagnóstico técnico
A larva é robusta, esbranquiçada, com cabeça escura e mandíbulas desenvolvidas, podendo atingir até 6 cm.
Vive em profundidade variável no solo, dificultando a visualização direta.
Os sintomas indiretos incluem falhas no estande, murcha em períodos secos, morte de touceiras e rizomas perfurados. Perdas podem ultrapassar 25 t ha⁻¹ em áreas severamente infestadas.
Monitoramento populacional
O monitoramento deve priorizar armadilhas Pitfall com feromônio sintético específico para captura de machos adultos durante revoadas.
Recomenda-se 1 armadilha a cada 15 hectares, com inspeção semanal. Em avaliações de solo, quando 10% das touceiras apresentam larvas ou média de 2 larvas por touceira, o manejo deve ser iniciado.
Manejo cultural e estrutural
A reforma do canavial é uma das medidas mais consistentes na redução populacional. O revolvimento do solo expõe larvas a predadores e estresse ambiental.
O uso de destruidor mecânico de soqueira e a rotação de culturas interrompem o ciclo da praga. Em áreas com histórico crônico, o planejamento deve anteceder o plantio da nova área.
Manejo químico com respaldo regulatório
O controle químico em pragas subterrâneas da cana deve respeitar rigorosamente o registro vigente no MAPA e a modalidade de aplicação descrita em bula.
Ativos com registro em formulações para aplicação no sulco de plantio incluem:
- Fipronil
- Clorantraniliprole (para pragas de solo em algumas formulações)
- Neonicotinoides específicos registrados para a cultura
Aplicações profundas formando “barreira química” entre 50 e 60 cm são práticas historicamente adotadas, porém devem estar formalmente amparadas por bula e receituário agronômico.
O uso fora das especificações legais não é recomendável. O posicionamento químico deve ser reservado para áreas com histórico comprovado de infestação e integrado a medidas mecânicas e culturais.
Controle biológico e perspectivas atuais
Nematoides entomopatogênicos como Steinernema spp. e Heterorhabditis spp. apresentam potencial para larvas jovens em condições controladas.
Entretanto, a consistência em campo ainda demanda ajustes operacionais, principalmente em profundidade e umidade do solo.
O manejo da broca-do-rizoma continua sendo predominantemente estrutural e preventivo.
Como manejar cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) na cana-de-açucar?
A cigarrinha-das-raízes reduz a eficiência do sistema radicular e interfere na absorção hídrica, especialmente em áreas com alta cobertura de palhada.
A prescrição técnica deve considerar densidade de ninfas por metro linear, umidade do solo e histórico da área.
O controle biológico com Metarhizium anisopliae é amplamente utilizado e apresenta boa consistência quando aplicado em condições adequadas de umidade e temperatura. Em situações de alta infestação, a intervenção química pode ser necessária.
Adultos de Mahanarva fimbriolata infectados por Metarhizium anisopliae
Fonte: AMTec Bio-Agrícola.
Entre os ativos mais empregados na cultura estão tiametoxam, imidacloprido, fipronil e clotianidina, posicionados conforme estágio da praga e idade da soqueira.
A decisão deve integrar monitoramento contínuo e avaliação do impacto econômico potencial.
Herbicidas residuais na cana-de-açúcar: prescrição agronômica na supressão do banco de sementes
O controle residual é componente estruturante na cana-planta e na soqueira. A prescrição agronômica deve considerar textura do solo, teor de matéria orgânica, regime de chuvas e espectro de plantas daninhas predominantes.
Entre os herbicidas residuais amplamente utilizados na cultura destacam-se diuron, hexazinona, amicarbazona, tebuthiuron, sulfentrazona, clomazone e metribuzin, frequentemente posicionados em misturas para ampliar o espectro de controle.
A escolha da molécula e da dose deve levar em conta persistência, risco de fitotoxicidade e intervalo até o próximo corte, especialmente em áreas com sucessivas aplicações históricas.
Manejo da cana-de-açúcar pré e pós-emergente: prescrição agronômica ao longo do ciclo produtivo
No manejo da cana-de-açúcar pré-emergente, o objetivo é impedir a emergência inicial de gramíneas e folhas largas que competem por água, luz e nutrientes no estabelecimento da cultura.
Já no pós-emergente, a decisão depende do estádio da cana, do tamanho da infestação e da seletividade varietal.
Entre os ativos com uso consolidado no pós-emergente destacam-se 2,4-D, mesotriona, tembotriona, ametryn e glyphosate em aplicação dirigida, evitando contato direto com a cultura.
A prescrição agronômica deve integrar momento de aplicação, condição climática e tecnologia de pulverização. Em cana-de-açúcar, a coerência entre biologia da planta daninha e posicionamento técnico determina a consistência do manejo ao longo dos cortes sucessivos.
É ai que entra a AgroReceita: plataforma de inteligência agronômica, focada na emissão do Receituário Agronômico. A plataforma integra:
- bulas atualizadas dos defensivos agrícolas;
- apoio ao posicionamento técnico por cultura e alvo;
- campos estruturados conforme as exigências legais;
- padronização das prescrições em diferentes áreas e talhões.
Preencha o formulário abaixo e teste grátis por 14 dias o Plano Pro da AgroReceita:
Nutrição e construção do perfil produtivo na cana-de-açúcar
A base produtiva da cana-de-açúcar começa na construção física e química do perfil do solo.
A prescrição agronômica deve partir de análise detalhada de fertilidade, saturação por bases, teor de alumínio trocável e distribuição de cálcio e magnésio em profundidade.
Calagem e gessagem não são operações isoladas. São decisões estruturantes para garantir enraizamento profundo, maior exploração do perfil e estabilidade da soqueira ao longo dos cortes. O manejo de nitrogênio, potássio e enxofre deve considerar produtividade esperada, histórico da área e exportação via colheita mecanizada com permanência de palhada.
A construção adequada do perfil reduz impacto de estresse hídrico, melhora eficiência de absorção e influencia diretamente TCH e ATR. A nutrição é o eixo que sustenta qualquer programa fitossanitário.
Planejamento varietal e sanidade de mudas: prescrição agronômica no ponto de partida do canavial
A escolha varietal é decisão estratégica de longo prazo. A prescrição deve considerar ambiente de produção, tipo de solo, regime hídrico, histórico fitossanitário e janela de colheita.
A rotação varietal reduz pressão de doenças como ferrugem e carvão, além de diluir riscos climáticos.
O uso de mudas certificadas, viveiros monitorados e, quando aplicável, mudas pré-brotadas, constitui medida preventiva contra raquitismo e outras enfermidades sistêmicas.
Sanidade inicial não é detalhe operacional. É o ponto de partida para estabilidade produtiva ao longo dos cortes subsequentes.
Colmos de cana-de-açúcar em estádio vegetativo com destaque para entrenós e gemas axilares. Fonte: Embrapa Agroenergia (2018)
Manejo fisiológico e longevidade da soqueira: prescrição agronômica além do primeiro corte
A longevidade da soqueira depende de decisões que ultrapassam o manejo pontual de pragas e doenças. Compactação, tráfego de máquinas, manejo de palhada e equilíbrio nutricional determinam perfilhamento e uniformidade.
A prescrição agronômica deve integrar controle de estresse hídrico, correção de camadas adensadas e manutenção da estrutura do solo. Falhas nessa etapa comprometem o número de cortes economicamente viáveis.
Planejar a reforma do canavial com base em indicadores técnicos, como queda progressiva de TCH, incidência fitossanitária e degradação estrutural do solo, é parte do manejo assertivo. A produtividade não é apenas resultado da safra corrente, mas da coerência técnica ao longo do ciclo produtivo.
Tecnologia de aplicação e conformidade regulatória
A eficiência do manejo químico na cana-de-açúcar não depende apenas da escolha da molécula.
Depende da tecnologia de aplicação, do enquadramento regulatório e da conformidade com registro vigente no MAPA. Produto correto aplicado de forma inadequada compromete desempenho, eleva custo operacional e amplia risco ambiental.
A prescrição agronômica moderna exige consulta ao Agrofit atualizado, verificação de cultura registrada, alvo biológico descrito em bula e modalidade de aplicação autorizada.
O receituário agronômico deve refletir fielmente essas informações, incluindo dose, intervalo de segurança, classe toxicológica e equipamento recomendado.
Ciclo produtivo: plantio, manejo da cana-de-açúcar e renovação do canavial
Fonte: Aegro (2023).
Aplicação terrestre e aérea: critérios técnicos
A escolha entre aplicação terrestre e aérea deve considerar estádio da cultura, fechamento de entrelinhas e tipo de alvo. Em canaviais com dossel fechado, a penetração de gotas é determinante para fungicidas e inseticidas de contato.
A legislação atual exige observância às condições climáticas no momento da aplicação, incluindo velocidade do vento, temperatura e umidade relativa, reduzindo risco de deriva.
O uso de pontas antideriva, controle de pressão e ajuste de volume de calda são medidas técnicas que impactam diretamente o resultado.
Manejo de palhada e interceptação de produto
No sistema de colheita mecanizada com permanência de palhada, a interceptação do herbicida é fator crítico. Produtos residuais devem ser posicionados considerando cobertura do solo e previsão de chuvas para incorporação superficial.
A recomendação deve avaliar mobilidade da molécula, adsorção em matéria orgânica e risco de lixiviação. A prescrição técnica não pode ignorar a dinâmica físico-química do ingrediente ativo no ambiente.
Rastreabilidade e responsabilidade técnica
A conformidade com o MAPA envolve registro de aplicação, rastreabilidade de lote, armazenamento adequado e descarte correto de embalagens conforme legislação vigente.
O profissional responsável deve assegurar que a recomendação esteja amparada por registro válido, evitando uso fora de bula. A atualização constante sobre cancelamentos, restrições e revisões regulatórias é parte da prática agronômica contemporânea.
Conclusão
O manejo da cana-de-açúcar não admite decisões isoladas. Trata-se de um sistema de produção plurianual, no qual solo, variedade, nutrição, sanidade e manejo operacional interagem continuamente. A estabilidade de TCH e ATR ao longo dos cortes não decorre de intervenções pontuais, mas da coerência técnica construída desde o preparo do solo até o planejamento da reforma.
Doenças foliares e sistêmicas, pragas de colmo, insetos subterrâneos e plantas daninhas competem por recursos no mesmo ambiente produtivo. A resposta agronômica exige leitura integrada.
Monitoramento consistente, escolha varietal criteriosa, sanidade de mudas e construção adequada do perfil do solo formam a base do sistema. Sem essa estrutura, qualquer posicionamento químico perde eficiência.
A prescrição agronômica organiza essas decisões dentro de uma linha lógica. Primeiro, constrói-se o ambiente produtivo. Em seguida, protege-se o potencial da área por meio de intervenções alinhadas à biologia dos alvos e ao estádio da cultura. O manejo químico, biológico ou mecânico deve estar subordinado ao diagnóstico técnico, jamais ao calendário.
A longevidade da soqueira representa o verdadeiro indicador de acerto no manejo da cana-de-açúcar. Reformas antecipadas, falhas no estande e queda progressiva de produtividade revelam desequilíbrios acumulados. O canavial bem conduzido mantém uniformidade, sanidade e vigor por vários ciclos.
Sobre o Autor
Alasse Oliveira
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Especialista em Produção Vegetal e, Doutorando em Fitotecnia (ESALQ/USP)