O que são micorrizas? Como esses fungos revolucionam a agricultura moderna
Sumário
Micorrizas são associações simbióticas entre fungos e raízes de plantas que transformam a eficiência da nutrição vegetal e o aproveitamento da água no solo. Descubra como aplicar micorrizas na agricultura para aumentar produtividade, sustentabilidade e resistência a estresses ambientais.
Você já ouviu falar em fungos que trabalham a favor da planta? Que aumentam a absorção de nutrientes, melhoram a estrutura do solo e ainda protegem contra estresses? Esses organismos existem, e são chamados de micorrizas.
Na agricultura moderna, o uso de insumos biológicos tem ganhado destaque, especialmente com o avanço do manejo regenerativo e da busca por práticas mais sustentáveis.
Nesse sentido, as micorrizas surgem como aliadas estratégicas, tanto no aumento da produtividade quanto na conservação dos recursos naturais.
Estudos mostram que a simbiose micorrízica pode melhorar a eficiência de uso de fósforo, a resiliência hídrica das plantas e até mesmo a tolerância a doenças do solo. Isso torna as micorrizas uteis para o agricultor que busca produzir mais, com menos impacto ambiental.
Neste artigo, vamos explicar detalhadamente o que são micorrizas, seus tipos, como se formam, quais os benefícios práticos no campo, e como você pode integrá-las ao manejo agrícola da sua lavoura.
Então, continue a leitura e descubra como esses fungos invisíveis podem fazer toda a diferença no resultado da sua produção.
Vamos lá?
O que são micorrizas?
Micorrizas são associações simbióticas entre fungos do solo e raízes de plantas, nas quais ambos os organismos se beneficiam.
Os fungos colonizam o sistema radicular e formam uma rede de hifas que se estende pelo solo, ampliando consideravelmente a área de absorção da planta.
Com isso, aumentam o acesso a água e nutrientes, especialmente fósforo (P), zinco (Zn) e cobre (Cu).
Em troca, a planta fornece ao fungo carboidratos produzidos na fotossíntese, estabelecendo uma relação de troca constante.
Figura 1. Zona de atuação das micorrizas. Fonte: Blog Agro do Amanhã (2022).
Essa interação é uma das mais antigas e bem-sucedidas da natureza, presente em cerca de 90% das espécies vegetais.
Como as micorrizas funcionam? Entenda o mecanismo simbiótico
As micorrizas estabelecem uma associação íntima e cooperativa entre fungos e raízes, baseada em troca de nutrientes e sinais bioquímicos. A seguir, entenda como esse processo ocorre desde o primeiro contato no solo até a formação das estruturas simbióticas.
Colonização e formação da simbiose
A simbiose micorrízica se inicia com a emissão de sinais químicos pelas raízes das plantas, que ativam os esporos dos fungos presentes no solo.
A partir disso, as hifas crescem em direção às raízes e penetram no córtex radicular, formando estruturas especializadas como arbúsculos (no caso das micorrizas arbusculares) ou mantos (no caso das ectomicorrizas).
Essas estruturas aumentam a área de troca entre planta e fungo, permitindo uma transferência altamente eficiente de nutrientes.
Essa simbiose também envolve ligações bioquímicas complexas, conhecidas como “links simbióticos”, nas quais sinais moleculares específicos são trocados entre fungo e planta.
Esses sinais garantem o reconhecimento mútuo e a ativação dos genes necessários para que ambos os organismos convivam em harmonia funcional.
Figura 2. Desenvolvimento sequencial do estabelecimento e funcionamento da associação com FMVA. Fonte: Adaptado por Alasse O. Silva (2025), de Siqueira (1991).
Micorrizas e absorção de nutrientes
A presença de micorrizas no sistema radicular permite que a planta acesse zonas do solo com baixa mobilidade de nutrientes, como o fósforo, que tende a se fixar em partículas minerais.
As hifas funcionam como extensões do sistema radicular, transportando íons minerais de zonas mais profundas ou compactadas até a planta. Além disso, os fungos são capazes de solubilizar formas orgânicas e minerais de nutrientes, liberando-os para absorção.
Essa maior eficiência na captação de nutrientes pode reduzir o uso de fertilizantes químicos, aumentando a rentabilidade do sistema produtivo e diminuindo impactos ambientais como a eutrofização de corpos d’água.
Quais são os tipos de micorrizas?
Existem diferentes tipos de micorrizas, cada uma com características específicas e formas distintas de interação com as raízes das plantas. Neste tópico, você confere os principais grupos e suas particularidades no ambiente agrícola.
Micorrizas arbusculares (AM)
As micorrizas arbusculares, também conhecidas como endomicorrizas, são distribuídas nas lavouras tropicais. Elas colonizam a raiz de forma intracelular e são responsáveis por grande parte da absorção de fósforo em solos tropicais, que geralmente possuem baixa disponibilidade do nutriente.
Os fungos associados pertencem ao filo Glomeromycota, como Rhizophagus irregularis e Claroideoglomus etunicatum. Esses fungos formam arbúsculos dentro das células do córtex radicular, promovendo uma troca eficiente de nutrientes.
Culturas como soja, milho, café, cana-de-açúcar e hortaliças respondem positivamente à inoculação com essas micorrizas, principalmente em solos degradados ou com histórico de revolvimento.
Ectomicorrizas
As ectomicorrizas são típicas de espécies florestais e árvores perenes, como eucalipto, pinus, castanheira e carvalho.
Nesse tipo, o fungo envolve a raiz com uma camada densa de hifas, chamada manto, sem penetrar nas células vegetais. Essa estrutura permite alta resistência a condições adversas, como solos ácidos e pobres.
Figura 3. Plantas diversas e sua relação com as micorrizas. Fonte: Adaptada de vários autores (2025).
Elas são fundamentais para projetos de reflorestamento, sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas, promovendo maior estabelecimento de mudas e incremento no crescimento inicial.
Micorrizas ericoides e orquidóides
Esses tipos são mais específicos e ocorrem em plantas das famílias Ericaceae e Orchidaceae, muitas vezes em ambientes com pH extremamente ácido ou baixa fertilidade.
Embora seu uso agrícola direto seja limitado, elas têm papel relevante em projetos de conservação de biodiversidade, jardinagem de espécies ornamentais e produção de mudas nativas.
Quais são os benefícios das micorrizas para a agricultura?
A associação com micorrizas traz diversos efeitos positivos para o desenvolvimento das plantas, indo além do aspecto nutricional. Compreenda melhor como essa simbiose impacta diretamente o manejo agrícola.
Melhoria na absorção de nutrientes
A principal vantagem agronômica das micorrizas é o aumento da eficiência nutricional, especialmente do fósforo.
Os fungos micorrízicos mobilizam formas insolúveis do nutriente e o entregam diretamente à raiz. Isso permite reduzir a adubação fosfatada e melhorar a performance das plantas em solos com baixa fertilidade natural.
Também há evidências de aumento na absorção de enxofre, manganês, ferro e zinco, resultando em culturas mais equilibradas nutricionalmente.
Eficiência no uso da água
As micorrizas ampliam a exploração do solo em volume e profundidade, acessando reservatórios hídricos menos disponíveis para as raízes normais.
Garantindo maior tolerância à seca, menor queda de produtividade em períodos críticos e manutenção do metabolismo fotossintético por mais tempo. Em sistemas de sequeiro, essa característica é um diferencial estratégico.
Estímulo ao crescimento vegetal
A simbiose estimula a produção de fitormônios, como auxinas, giberelinas e citocininas, que promovem o desenvolvimento radicular e vegetativo.
Plantas micorrizadas apresentam maior acúmulo de biomassa, melhor formação de estrutura reprodutiva e antecipação do ciclo em algumas culturas. Isso se traduz em lavouras mais vigorosas e com maior expressão de potencial genético.
Aumento da resistência a doenças
As micorrizas também atuam como barreiras biológicas contra fitopatógenos, ocupando espaço e consumindo recursos que poderiam ser usados por fungos nocivos.
Além disso, ativam mecanismos de defesa sistêmica induzida (DSI) nas plantas, tornando-as mais resistentes a doenças radiculares. A associação com micorrizas reduz a incidência de doenças como fusariose, podridão de raízes e nematoides, promovendo estabilidade no sistema.
Figura 4. Como a defesa induzida (DSI) atua? Fonte: Adaptada de vários autores (2025).
Benefícios para os fungos micorrízicos
Os fungos micorrízicos também obtêm vantagens na associação simbiótica com as plantas. O principal benefício é o acesso contínuo a compostos orgânicos energéticos, como açúcares (glicose, frutose) produzidos pela planta via fotossíntese.
Essa fonte de carbono é essencial para o crescimento e reprodução do fungo, que, por ser heterotrófico, não realiza fotossíntese.
Além disso, o ambiente radicular fornece proteção física e microambiental contra condições adversas do solo, como variações de pH, déficit hídrico ou presença de antagonistas.
A relação simbiótica também favorece a preservação evolutiva das espécies fúngicas, permitindo que elas se perpetuem em ecossistemas agrícolas ao longo dos ciclos culturais.
Aplicações práticas: como usar micorrizas no campo?
O aproveitamento das micorrizas no sistema produtivo exige atenção a detalhes como o método de aplicação, a escolha da cultura e a disponibilidade desses fungos no ambiente. Confira, a partir de agora, informações úteis para colocar essa tecnologia em prática de forma assertiva.
Inoculação de micorrizas
A inoculação pode ser realizada via tratamento de sementes, sulco de plantio ou aplicação no substrato em viveiros. O sucesso depende da viabilidade do inoculante, da compatibilidade com a cultura e das condições físicas e químicas do solo.
A aplicação deve ser feita com cuidado para evitar a exposição a produtos químicos tóxicos, como fungicidas sistêmicos ou fertilizantes com alto teor salino.
Em sistemas de agricultura regenerativa e orgânica, a inoculação tem sido associada a aumentos expressivos de produtividade, além de promover maior colonização espontânea de microrganismos benéficos no sistema radicular.
Culturas com maior resposta às micorrizas
Plantas como soja e milho mostram ganho expressivo de produtividade quando cultivadas em solos com teores baixos de fósforo disponível.
Cana-de-açúcar e café, por outro lado, se beneficiam de maior enraizamento e rebrote. Já hortaliças, principalmente alface, rúcula e tomate, apresentam crescimento acelerado e melhor desenvolvimento de parte aérea e sistema radicular.
Onde encontrar fungos micorrízicos?
Os fungos micorrízicos ocorrem naturalmente em quase todos os solos, especialmente aqueles com vegetação nativa preservada, cobertura vegetal permanente e mínima perturbação química ou mecânica.
Solos de florestas, cerrados, matas ciliares e áreas orgânicas conservadas são ricos em esporos micorrízicos.
Em áreas agrícolas, a presença pode ser reduzida devido ao uso intensivo de adubos químicos, fungicidas e preparo do solo.
Nesses casos, a melhor forma de reintroduzi-los é por meio de inoculantes comerciais, que contêm esporos viáveis de espécies específicas, selecionadas para determinadas culturas. Esses produtos são encontrados em lojas agrícolas especializadas, centros de pesquisa e plataformas de biotecnologia agrícola.
Micorrizas e agricultura sustentável
Além de contribuírem diretamente para o crescimento das plantas, as micorrizas desempenham um papel relevante na construção de sistemas agrícolas mais equilibrados e menos dependentes de insumos externos.
Entenda, em detalhes, como essa simbiose influencia o meio ambiente e a rentabilidade do produtor.
Vantagens ecológicas
A simbiose micorrízica reduz a necessidade de fertilizantes químicos, evitando a lixiviação de nutrientes e diminuindo a contaminação ambiental.
Além disso, promovem o sequestro de carbono no solo, por estimular o crescimento radicular e a deposição de compostos orgânicos estáveis.
Do ponto de vista ecológico, as micorrizas servem para a estruturação da microbiota do solo, influenciando diretamente a diversidade de microrganismos, a resiliência de ecossistemas e a ciclagem de nutrientes.
Em áreas naturais, elas formam redes interconectadas de raízes e fungos, conhecidas como wood wide web, que permitem o compartilhamento de recursos entre diferentes plantas, contribuindo para a estabilidade ecológica e regeneração de florestas.
Economia e eficiência produtiva
Produtores que adotam micorrizas relatam economias superiores a 30% em fertilizantes fosfatados, além de incrementos de 10 a 25% na produtividade, especialmente em solos pobres.
A tecnologia também favorece sistemas de cultivo resilientes às mudanças climáticas, com maior estabilidade em anos de seca ou excesso de chuvas.
Figura 5. Micorrizas na agricultura. Fonte: Adaptada de vários autores (2025).
Quais são os desafios no uso de micorrizas?
Apesar do grande potencial, ainda há limitações. A qualidade dos inoculantes comerciais varia bastante, e muitos produtos carecem de garantia de viabilidade ou padronização de cepas fúngicas.
Além disso, práticas como revolvimento intenso do solo, uso excessivo de fungicidas ou plantios contínuos sem rotação podem comprometer a colonização micorrízica.
Outro desafio é a falta de conhecimento técnico entre agricultores e consultores, o que exige capacitação e validação em campo.
Investir em formação técnica e boas práticas de manejo é fundamental para aproveitar todo o potencial dessa biotecnologia.
Tecnologia e informação para o manejo agrícola mais eficiente
Embora as micorrizas sejam uma aliada biológica no campo, o sucesso da lavoura também depende de decisões assertivas no manejo químico e fitossanitário.
Nesse sentido, a plataforma da AgroReceita oferece o que há de mais avançado em emissão digital de receituário agronômico, garantindo agilidade e segurança para profissionais da agronomia, engenharia florestal e técnicos agrícolas.
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Conclusão
As micorrizas representam um dos mecanismos biológicos mais promissores para a agricultura do futuro.
Sua aplicação prática vem ganhando espaço nas propriedades que buscam maior rentabilidade, sustentabilidade e resiliência diante das mudanças climáticas.
Incorporar micorrizas ao manejo agrícola não é mais tendência: é necessidade. E quanto antes produtores, técnicos e pesquisadores se envolverem com essa tecnologia, maiores serão os ganhos.
Então, que tal levar esse conhecimento para o campo?
Sobre o Autor
Alasse Oliveira
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Especialista em Produção Vegetal e, Doutorando em Fitotecnia (ESALQ/USP)